Quando somos pequenos, dizemos que amamos quando amamos, dizemos que não gostamos quando não gostamos, dizemos que é feio o que achamos feio e exaltamos a beleza do que julgamos ser belo.
É essa pureza o que cerca o mundo nessa época. É essa sinceridade que caracteriza a infância.
Só que depois crescemos. Ficamos chatos, igual àqueles adultos que enxergávamos de baixo no outro tempo.
E passamos a dizer que sentimos isso ou aquilo quando na verdade não temos certeza do que estamos dizendo, quando já esquecemos os valores e a imensidão que cada sentimento carrega consigo, e os estragos que podem ser causados quando percebemos que na verdade não era isso.
Começamos a dizer que gostamos daquilo que na verdade odiamos. De início pode ser um prato preparado especialmente pra você na casa do amigo. Você odeia muito aquela comida, mas engole, lambe os beiços e a até repete. No final agradece e faz cara de satisfeito. E tudo isso pra agradar ao amigo, que entenderia tranquilamente o fato de você não gostar de tal prato. Mas não, agora você vai passar o resto dos almoços na casa dele comendo sempre aquilo que você odeia. Será que é mesmo essencial essa história de etiqueta? Era mais fácil antes, quando bastava empurrar o prato e dizer: “eu não gosto disso”.
Não dizemos que o corte de cabelo novo do colega está feio e deixamos ele sair por aí, igualzinho ao Xororó antigamente. Dizemos no máximo que está diferente, uma coisa meio flashback, e deixamos ele ser feliz.
Isso por medo de magoar os sentimentos dele, ignorando o fato de que se ele perguntou isso a você, é porque deposita confiança e buscou uma opinião de sinceridade. Antes a gente diria: “ficou parecendo Xororó”.
E pronto, ele ia lá, mudava o corte e ainda daria risadas.
Na questão da beleza ainda seguimos quase os mesmos limites. Exceto pelo fato de nos atermos apenas às belezas superficiais, materiais. Esquecemos de enxergar o lado de dentro, o íntimo, o quão belo pode ser o coração de quem está ao seu lado. Esquecemos de embelezar a vida, de agradecer pelas inúmeras árvores com suas folhas verdes que continuam a fazer sombra em nossos jardins. Deixamos de lado a beleza das flores, e ficamos preocupados em ir ao salão tratar do cabelo, com a roupa que vamos usar na festa.
Porque quando crescemos criamos um muro. Os sentimentos mais afeitos e verdadeiros deixam de ser expostos, tomados pelo medo e pela vergonha. E por tantas coisas mais que tomamos como “regras” a serem seguidas nesse mundo novo que vai transformando tudo a cada dia que o tempo passa.
Não devia ser assim. Nós poderíamos mudar, mas o coração devia ter liberdade de exposição em tempo integral, sem se privar de suas emoções por conta das imposições que a razão insiste em criar.
Esse muro que antes não existia e que vai sendo construindo aos poucos conforme o mundo gira, deveria não se expandir tanto assim. Mas agora sabe como é, nos dias atuais, ele tem que ser bem grande, e se possível com cerca elétrica e alarme.
Eu discordo!
O meu, depois que percebi, não deixo subir. Quando não dá, coloco grades, porque fica mais fácil de visualizar as entrelinhas. Fica melhor para o coração respirar, já que a liberdade integral eu também já não tenho mais.
Falta coragem de quebrá-lo.

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