terça-feira, novembro 16, 2010

Sessão "No meu tempo... "

Eu me lembro até hoje da sensação de sentar-se na cadeira escolar que era quase o dobro do nosso tamanho, olhar para o quadro negro e imaginar a vida da professora. Será que ela gosta de crianças? Será que tem filhos? Será que tem bom humor? Será que vai com a minha cara? Será que vive como a gente vive?

Bons tempos são esses de escola. Tolas e imaturas preocupações. Pueris imaginações. Mundo novo que se vai descortinando aos poucos, apaixonadamente. Números que assustam. Palavras que encantam. Cheiro de merendeira que carrega Mirabel e suco de groselha que mancha a camisa do uniforme. Uniforme que chega branco e sai como se todas as crianças tivessem dado uma volta por todos aqueles lugares que a professora de História do Brasil contou, por todos os países mais distantes que a outra Tia de Geografia as fizeram conhecer. Estojo que cheira a giz de cera e cola colorida. Rostos presenteados com pequenos brilhos de purpurina que não saem nem no banho. Franjinhas grudadas na testa suada. Dever de casa. Camisa pichada no final do ano. Hora da saída com muita correria pelas ruas, mães enlouquecidas e a velha pipoca, vendida todo fim de tarde pelo velhinho da porta da escola. O passeio ao Jardim Zoológico, ao Museu Nacional, o medo das plantas carnívoras e o pé de feijão plantado num copinho de café com algodão.


A tarde que saiu mais cedo, o menino que abriu a testa, a troca de figurinhas e a moda ter aquilo e aquela outra coisa também porque todo mundo tem. Pesquisas sobre os planetas, na época que Plutão ainda existia, com bolas de isopor pintadas a guache durante a tarde toda, mas nenhum trabalho acerca do medo do fim do mundo e nem mesmo dos efeitos da falta de água, essa que fazia parte dos banhos de mangueira das férias de verão. Ah !

Chega você agora e diga que não era bom. Eu duvido que as lembranças não sejam boas. A gente toda tem saudade dessa vida que nem parece mais possível para ninguém. As escolas não são mais iguais, os tempos não são mais os mesmos e quanto mais ele passa, mais sinto falta de uma época feliz, incrivelmente feliz.

O mal é que apenas sentimos...

(Falando assim, até parece que faz muito tempo... tsts)

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