Um guerreiro da luz não tem “certezas”, mas um caminho a seguir - ao qual procura adaptar-se de acordo com o tempo. Luta no verão com equipamentos e técnicas diferentes da luta no inverno. Sendo flexível, ele não julga mais o mundo na base do “certo” e “errado”, e sim na base da “atitude mais apropriada para aquele momento”. Sabe que seus companheiros também têm que adaptar-se, e não fica surpreso quando eles mudam de atitude. Dá a cada um o tempo necessário para justificar suas ações. Mas é implacável com a traição.
"As cordas que estão sempre tensas terminam desafinando. Os guerreiros que estão sempre treinando, perdem a espontaneidade na luta. Os cavalos que sempre saltam obstáculos terminam quebrando a perna. Os arcos que são curvados todos os dias, já não atiram suas flechas com a mesma força. Por isso, mesmo que não esteja disposto, o guerreiro da luz faz um esforço para se divertir com as pequenas coisas do dia-a-dia."
"Dai ao tolo mil inteligências, e ele não quererá senão a tua", diz o provérbio árabe. Quando o guerreiro da luz começa a plantar o seu jardim, repara que o vizinho está ali, espiando. Ele gosta de dar palpites sobre como semear as ações, adubar os pensamentos, regar as conquistas. Se o guerreiro der atenção ao que ele está dizendo, terminará fazendo um trabalho que não é o seu; o jardim que agora cuida será idéia do vizinho. Mas um verdadeiro guerreiro da luz sabe que cada jardim tem seus mistérios, que só a mão paciente do jardineiro é capaz de decifrar. Por isso, prefere concentrar-se no sol, na chuva, nas estações. Sabe que o tolo que espia por cima da cerca para dar palpites sobre o jardim alheio, não está cuidando de suas plantas.
Primeiro: Deus é sacrifício. Sofra nesta vida, e será feliz na próxima. Segundo: quem se diverte é criança. Viva sob tensão. Terceiro: os outros sabem o que é melhor para nós, porque tem mais experiência. Quarto: nossa obrigação é deixar os outros contentes. É preciso agradá-los, mesmo que isto signifique renúncias importantes. Quinto: é preciso não beber da taça da felicidade, senão podemos gostar - e nem sempre a teremos em nossas mãos. Sexto: é preciso aceitar todos os castigos. Somos culpados. Sétimo: o medo é um alerta. Não vamos correr riscos. Estes são os mandamentos que nenhum guerreiro da luz pode obedecer.
O guerreiro da luz sabe que, como dizem os tibetanos, “não é preciso uma experiência mística para descobrir que o mundo é bom". Basta perceber as coisas belas e simples a sua volta. Quando tem medo, o guerreiro concentra-se nos pequenos milagres da vida diária. Se for capaz de ver o que é belo, é porque traz a beleza dentro de si - já que o mundo é um espelho, e devolve a cada homem o reflexo de seu próprio rosto. Embora conhecendo seus defeitos e limitações, o guerreiro faz o possível para manter o bom-humor nos momentos de crise. Afinal de contas, o mundo está se esforçando para ajudá-lo, mesmo que tudo em volta pareça dizer o contrário.
Um guerreiro sabe que os fins não justificam os meios. Porque não existem fins; existem apenas os meios. A vida o carrega do desconhecido para o desconhecido. Cada minuto está revestido deste apaixonante mistério: o guerreiro não sabe de onde veio, nem para onde vai. Mas sabe que não está aqui por acaso. E se alegra com a surpresa, encanta-se com paisagens que não conhece. Muitas vezes sente medo, mas isto é normal em um guerreiro. Se ele pensar apenas na meta, não conseguirá prestar atenção aos sinais do caminho. Se concentrar-se em apenas uma pergunta, perderá várias respostas que estão ao seu lado. Por isso o guerreiro se entrega.
Techos do manual do Guerreiro da Luz - Paulo Coelho
sexta-feira, maio 23, 2008
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