sexta-feira, maio 09, 2008

In Memoriam - Artur da Távola

Mero jogo de palavras?

Não sou inconstante nas minhas definições. Sou constante nas minhas indefinições. Prefiro assim. A inconstância é grave falha. A indefinição é virtude rara. Só define quem teme continuar pensando, quem prefere estratificar ou parar a vida, por parecer mais fácil. Quem é constante nas próprias definições cristaliza sua inteligência. Quem é inconstante nas próprias definições, está sempre tendo definições a cada passo, acreditando nelas, vivendo em contradição. Quem é inconstante nas indefinições, é confuso, inseguro, eterno troca-troca. Prefiro ser constante nas minhas indefinições. A constância do não se conhecer em nome do vir-a-ser. A constância de não se intrometer no fluxo da vida, permanente, obscuro e indefinido. Sempre. A constância no aceitar todas as verdades em vez de uma só.
Não conhecer é poder continuar conhecendo sempre. Mais e melhor. Conhecer é definir. Definir é parar; assim como explicar é cristalizar e justificar é destruir. Sou constante, sim, orgulhosamente no caminho das minhas indefinições. Nelas está a minha ânsia de realidade; a minha fome de mundo; o espanto metafísico; a esperança na fé. Repito: para mim fé ainda não é certeza (gostaria que fosse): é esperança. A indefinição me faz amar o mundo e perder o amor que está ao meu alcance. Faz-me preferir ficar pensando, deitada na rede, a ir à Europa, Marrakesh ou á Finlândia. Pois viajo até melhor.
A indefinição me faz querer o verso, tendo a crônica; preferir o livro tendo o jornal; almejar a paz, vivendo na inquietude. A indefinição me leva a gostar tanto, que me impede de gostar de tudo. Isso, aliás, doí muito. Sobretudo quando não entendem que gostar tanto é profundamente fraterno, embora não satisfaça as carências de quem está ao lado e também gosta de mim, eu sei. A indefinição me faz aceitar cada pessoa como é e leva os demais a me atribuirem uma qualidade que não é minha, é dela (indefinição). Quem me chamar de boazinha confudirá a capacidade de aceitação plenas de pessoas e coisas, com bondade. Os definidos (quando bons) o são muito mais do que eu. Mas a mansidão de minha compreensão, meu medo de ter verdades, minhas expectativa ante o enigma, é confudida com bondade apenas porque nada impõe, pede, cobra ou exige dos outros. Ás vezes sou lúcida demais para poder ser boa.
A indefinição me faz partícula de algum cristal, mistério alquimico para refletir a natureza inteira, filtrando todas as cores e irradiações. A minha indefinição é a minha humildade ante o cosmos. A certeza de que nao posso limitá-lo nas fronteiras do meu pobre entendimento. A minha constância é a virtude salvadora. Salva a minha indefinição da loucura, da desagregação e do desespero.
A constãncia (nas indefinições), sem ser anestesia, permite-me suportar a dúvida e aceitar(até alegre) os mil amores distintos que me agitam, as mil religiões que tenho e doutrinas que aceito. Sou constante porque há uma energia de vida a impulsionar para a aceitação dos enigmas sem os crivar das deformações decorrentes das minhas caquéticas certezas. A realidade é sempre mais ampla. Ao aprisioná-la (por momentos), não a retemos. Sabê-la é transformá-la. Verbalizá-la é privá-la de plenitude. A palavra não esgota a realidade. E até para pensar, só tenho palavras. Palavras cruzadas. Jogo de palavras. Palarvas?A minha constância é a minha saúde, virtude e salvação. Permite o trânsito das indefinições na mão e contramão de todas as convicções. É o ponto certo, e centro, da minha integração: território onde o que é maior, mais verdadeiro, rico e sábio do que eu, coexiste em saudavel angústia com os limitados desígnios do meu pobre ser. E bêbada de infinitos sigo por aí. Não sabendo gostar de ninguém, por saber gostar de todos. Não sendo o que cada pessoa espera, por receio de que gostem de mim pelo lado errado. Com medo de receber, por julgar-me eterna devedora.
Sou constante nas minhas indefinições! Por isso, até mesmo quem sofre por elas acaba se fazendo espelho nos meus olhos limpos porque olham as mutações sem susto e sem definições. Como o vento que não sabe por que sopra. Mas é constante. Na sua indefinição de direções.

Artur da Távola

Ps: Hoje perdemos um otimo escritor e pensador. Mas sua inteligencia e sua obra ficarao aí pra sempre. Quem nao conhece, ainda esta em tempo.
Incrivel a sabedoria presente nesta cronica que adoro. Me encontro em várias frases dela.

abraços.

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